O PARADIGMA EMERGENTE DA COMPLEXIDADE
Esta página foi criada com o propósito de divulgar as idéias associadas ao paradigma emergente da Complexidade, que aos poucos vem se instalando na cultura da civilização contemporânea. O conceito de Complexidade aqui estudado pode ser entendido também como Nova Ciência. Este novo paradigma, além das profundas transformações no comportamento individual e coletivo que se observa nos atuais tempos de crise, é validado por um complexo de teorias que vêm se desenvolvendo nas últimas décadas e que formam o arcabouço científico para uma nova visão de mundo – o pensamento complexo, de modo a transcender a visão newtoniana-cartesiana construída durante o século XVII – a metáfora do universo-máquina que moldou a era industrial e que continua a determinar o modo de vida da humanidade atualmente. Ou seja, modo de vida este ainda hegemônico na sua versão econômica, na concepção de universo-mercado onde a economia perdeu seu sentido original que é cuidar da casa (oikos) e passou a ter fim em si mesma, e o viver humano foi, por meio de sofisticados processos de fetichização, condicionado aos interesses maiores do capital: o consumo e a acumulação. Dentro desse modelo civilizatório de natureza excludente, predatória e, no limite, autodestrutiva não há qualquer possibilidade de emancipação humana e, portanto, de uma perspectiva de evolução da humanidade em convivência harmoniosa com Gaia – o sistema vivo Terra, cujo metabolismo encontra-se hoje gravemente desequilibrado por razões antrópicas, segundo a comunidade científica.
Dentre as várias TEORIAS DA COMPLEXIDADE já elaboradas, talvez as mais conhecidas e relevantes são a teoria do caos, a teoria dos fractais, a autopoiese e a lógica fuzzy, as quais representam a superação do determinismo newtoniano, da geometria euclidiana, do darwinismo social e da lógica aristotélica, respectivamente. Todas estas teorias já têm muitas aplicações em nosso cotidiano, associadas tanto ao desenvolvimento tecnológico quanto humano e social. Tratam-se de teorias revolucionárias que estão reformulando os pressupostos da ciência moderna e tentanto resgatar o ser humano enquanto sujeito de sua história, e que por isso impactam profundamente a forma de percebermos a realidade e nos relacionarmos com ela. Significam assim o surgimento de um novo paradigma civilizacional, um novo conjunto de conhecimentos, valores, crenças, sonhos e relações tentando brotar na consciência humana.
Essa nova concepção de mundo iniciou-se principalmente no campo da física por meio dos trabalhos de Albert Einstein, Max Planck, Werner Heisenberg, Niels Bohr, Erwin Schröedinger, Paul Dirac e outros, que se empenharam em desvendar os mistérios do mundo subatômico criando o ramo da embaraçosa física quântica. Depois, estendeu-se a várias áreas do conhecimento e passou a ser desenvolvida por renomados pensadores contemporâneos, dentre os quais podemos citar Humberto Maturana, Joël de Rosnay, James Gleick, Gregory Bateson, David Ruelle, Henri Atlan, Stuart Kauffman, Rupert Sheldrake, o Nobel Ilya Prigogine, Bruce Lipton, Ervin Laszlo, Fritjof Capra, o Nobel Murray Gell-Mann, Dee Hock, John Holland, David Peat e Edgar Morin. Este último deu notável contribuição ao avanço da ciência da complexidade, sobretudo no campo epistemológico.
A idéia de Complexidade vai muito além das leis mecanicistas que reduziram o universo a uma máquina determinística e causal-linear resultante da simples soma do funcionamento controlado e ordenado de cada um de seus componentes, conforme os fundamentos do método científico analítico no qual as partes de um sistema ou problema devem ser estudadas separadamente para que se possa apreender o todo – a visão mecânica de mundo. Ultrapassa também as leis de mercado atualmente vigentes que submeteram o ser humano, a sociedade e toda a natureza à lógica excludente e predatória da competitividade onde devem sobreviver somente aqueles considerados mais aptos – visão econômica de mundo. Transcendendo estas duas concepções de mundo ainda predominantes, emerge na atualidade a visão complexa de mundo, a qual advém de uma compreensão mais ampliada de que o universo é na verdade formado por sistemas adaptativos complexos (ou processos dialógicos complexos, como define o pesquisador Júlio Tôrres) – aquilo que é tecido junto – interligados em uma imensurável (portanto, inesgotável) rede de interdepedências cujas estruturas e propriedades emergem da dinâmica relacional entre suas partes constituintes num movimento contínuo e homogêneo entre caos e ordem. Tais sistemas caracterizam-se, ao contrário daquele suposto universo-máquina determinístico e inerte, pela instabilidade, incerteza, diversidade, permeabilidade, auto-organização, impreditibilidade e mudança, o que lhes permite interagir e co-evoluir com o ambiente em que se encontram inseridos. Logo, não podemos, como diz Humberto Mariotti, “reduzir a complexidade a explicações simplistas, a regras rígidas, a fórmulas simplificadoras ou a esquemas fechados. Ela só pode ser entendida e trabalhada por um sistema de pensamento aberto, abrangente e flexível - o pensamento complexo”.
Como se percebe, as implicações dessa nova concepção de mundo para o nosso modo de viver são profundas, especialmente no que se refere à forma como nos relacionamos com nós mesmos, com o outro e com a natureza. Estamos, portanto, vivendo uma MUDANÇA DE ÉPOCA, similar ao que ocorreu na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, em que se observa o esgotamento de um paradigma civilizacional mecanicista e econômico e uma gradual transição(evolução) de um sistema de pensamento linear, que é fechado, polarizador, fragmentado, competitivo, excludente e predatório, para um pensamento complexo, que é aberto, dialógico, relacional, cooperativo, includente e integrador. Assim, a abordagem da complexidade reflete a necessidade e urgência de uma profunda reforma no modelo de pensamento predominante na cultura atual. Representa uma real possibilidade de instalação de uma nova visão de mundo capaz de superar os graves problemas socioambientais de nossa geração que estão ameaçando não só as gerações futuras mas a vida de todo o sistema Terra. Cenário este sombriamente captado pelo alerta do biologista Jacques Monod: “chegou o tempo de assumirmos os riscos da aventura humana”.
A CRISE DE PERCEPÇÃO DA REALIDADE
a
Humberto Maturana
Este texto propõe-se a refletir um pouco sobre a história da relação entre ciência e cultura, e assim tentar lançar um novo referencial para entendermos melhor a crise socioambiental que tem marcado a época atual, que na verdade é parte de uma crise maior e mais profunda. Ou, o que um número crescente de renomados cientistas chamam de crise de percepção. O biólogo e antropólogo Gregory Bateson disse: “A fonte de todos os problemas de hoje é o hiato entre como pensamos e como a natureza funciona”. De fato, é o que as grandes revoluções científicas do último século estão demonstrando: que estamos vivendo no paradigma errado.
Esse tal paradigma teve início quando, não se sabe bem o porquê, a cultura patriarcal (favor não confundir com machismo) se instalou há aproximadamente sete mil anos entre os povos indo-europeus, segundo estudos arqueológicos (Riane Eisler e Marija Gimbutas). Este evento é considerado o marco inicial do longo processo de moldagem da mente humana pelo modelo mental linear ou cartesiano (aquele que privilegia o lado esquerdo do cérebro – racional, lógico, objetivo, repetitivo etc e subestima o lado direito – emoção, intuição, subjetividade, criatividade etc). Essa cultura patriarcal tem como principal característica a idéia de apropriação, compreendida como a vontade de poder e dominação do homem sobre si mesmo, sobre o outro, sobre a verdade e sobre a natureza. Foi a partir deste momento que o homem começou a se ver separado da natureza. Antes da cultura patriarcal havia uma cultura chamada matrística (não confundir com matriarcal), caracterizada pelo senso de participação, espiritualidade, interatividade, amorosidade, confiança e convivencialidade – vivia altamente integrada com a natureza.
O modelo mental linear começou a ser sistematizado há 2.500 anos por Aristóteles, Parmênides, Platão e outros pensadores gregos, quando surgiu a ciência. Muito tempo depois, este modelo foi consolidado pela ciência moderna, durante o século XVII. Dentre seus formuladores, os que tiveram maior expressão foram o físico Isaac Newton e o filósofo René Descartes, os quais conceberam a idéia de que existia uma realidade única e objetiva, independente da nossa vontade (que provoca frases do tipo: “já estava assim quando eu cheguei” ou “as coisas são assim mesmo, desde que o mundo é mundo”). O universo, segundo estes pensadores, é uma máquina (daí o termo “mecanicismo” – paradigma newtoniano-cartesiano). Também contribuíram para uma leitura de mundo fragmentada nomes como Galileu Galilei, Francis Bacon, Thomas Hobbes e outros.
Em torno dessa mesma época, surgiram as correntes culturais que deram sustentação a esse paradigma e moldaram o funcionamento da sociedade moderna, entre elas o Renascimento, o Iluminismo, o Positivismo e a Revolução Científica e Industrial. E foi assim que a administração científica (Taylor e Fayol), em busca da eficiência do homem-máquina, o homo racional, montou o sistema produtivo da era industrial – como as pessoas deveriam se encaixar nas organizações: o chefe (que sabe) manda e controla e os “recursos humanos” (recurso não pensa) obedecem. Para manter este modelo, o sistema educacional teve um caráter meramente adestrador e utilitarista, uma “educação bancária” como definiu Paulo Freire. Importante frisar que não se quer aqui desclassificar a ciência e os pensadores citados, que aliás foram notáveis em suas idéias e descobertas científicas, mas destacar a exaltação dada, ao longo de gerações, a um pensamento binário, linear e fragmentado, um reducionismo que, mesmo tendo proporcionado grandes avanços tecnológicos, também trouxe enormes problemas para a humanidade.
Em meados do século XX, esse modelo hediondo culminou com a criação do sistema capitalista globalizado. O socialismo (ou o comunismo), se tivesse predominado, possivelmente redundaria em um capitalismo de Estado, porque também era amparado numa visão reducionista de mundo, na lógica binária que provavelmente geraria problemas tão ou mais graves que os atuais - basta lembrar dos cerca de 30 milhões que morreram de fome na China de Mao Tsé-tung, por volta de 1960. O fato é que, no fim do século XX, com o crescimento da economia, entramos na era do capital, fundamentada num sistema econômico totalmente desvirtuado do que propunha inicialmente Adam Smith - um liberalismo econômico alicerçado no equilíbrio entre a finanças movida pelo auto-interesse, de um lado, e o bem-estar social movido pela “mão invisível” do mercado (interações sociais - auto-organização), de outro. A primeira força sobrepujou a segunda, gerando o chamado darwinismo social - equivocada justificação biológica para o capitalismo, uma apropriação deturpada da idéia de “seleção natural” de Charles Darwin. Como defende o biólogo chileno Humberto Maturana, “na natureza não há concorrência, por muito que seja afirmado por aqueles que mal entenderam a Darwin. A concorrência não é um fenômeno biológico primário. É um fenômeno cultural”. E para a cultura atual o universo é um grande mercado (cosmovisão dominante) onde nós seres humanos fomos reduzidos a tubos de consumo e excreção – o homo economicus, muitos dos quais seres invisíveis – a grande maioria já considerada desnecessária ao sistema. Esse modelo é hediondo porque é excessivamente competitivo, excludente e predatório. Chegou-se ao ápice do modelo mental linear, ao ponto do filósofo norte-americano Francis Fukuyama declarar o fim da História. Realmente é o fim, mas parece ser o fim de uma longa história da cultura patriarcal, pois Gaia, o superorganismo vivo Terra batizado por James Lovelock, está chegando ao seu esgotamento e vem dando respostas convincentes à incoerência desse modelo. Como diz Leonardo Boff, continuar vivendo nesse paradigma é uma atitude genocida e ecocida.
Porém, nos últimos cem anos, concomitantemente aos fatos narrados acima, a ciência estava se reconstruindo. Surgia uma NOVA CIÊNCIA – TEORIAS DA COMPLEXIDADE. Embora grandes pensadores como Sócrates, Heráclito, Pitágoras e outros já houvessem intuído, as novas idéias de mundo começaram com Henri Poincaré (matemática da complexidade), Einstein (teoria da relatividade – partícula/onda), depois veio Heisenberg com o princípio da incerteza (física quântica – física das possibilidades), Watson e Crick que decifraram o código genético da vida (estrutura do DNA – informação) e, mais recentemente, Edward Lorenz (teoria do caos – atratores caóticos), Benoit Mandelbrot (teoria dos fractais), David Bohm (ordem implicada – diálogo), René Thom (teoria das catástrofes), Lotfi Zadeh (lógica fuzzy), Amit Goswami (universo autoconsciente), o Nobel Ilya Prigogine (estruturas dissipativas), Humberto Maturana e Francisco Varela (autopoiese – biologia do amor), Leonardo Boff (teologia da libertação), Edgar Morin (unitas multiplex – operadores cognitivos), Pierre Lévy (cibercultura), Geoffrey Chew, Ralph Stacey, Gilles Deleuze, Felix Guatari, Lynn Margulis, Zygmunt Bauman, Basarab Nicolescu, Pedro Demo, Stephen Hawking, Niklas Luhmann, Murray Gell-Mann, Jürgen Habermas e tantos outros que contribuíram para mostrar que o universo não é tão inerte e linear como se pensava. Contribuiram também para mostrar que não vivemos em um mundo dado (a idéia de que a realidade é objetiva e independente do observador - visão representacionista), e sim em mundo co-criado onde cada um de nós criamos (afetamos) a nossa realidade. Como bem disse Heisenberg, “o que observamos não é a natureza em si, mas a natureza exposta ao nosso método de questionamento”.
Surgia assim o modelo mental complexo, que resulta do ABRAÇO entre o lado direito e esquerdo do cérebro, entre o linear e o holístico, o caos e a ordem - CAÓRDICO. Nas palavras do astrônomo James Jeans, “o curso do conhecimento está se movendo em direção a uma realidade não mecânica. O universo começa a se parecer mais com um grande pensamento do que com uma grande máquina”. O universo, e tudo que há nele, é um sistema adaptativo complexo (aquilo que é tecido junto – padrão de redes), relacional, auto-organizante, instável e neguentrópico (negação da entropia – sistema aberto), portanto, em contínua evolução. Sua única constante é a mudança – verdade com o qual a cultura patriarcal, enraizada há milênios, tem uma enorme dificuldade de conviver. Este modelo mental complexo seria então um resgate de padrões de comportamento daquela cultura matrística, uma tentativa de reintegração do homem consigo mesmo, com os seus semelhantes e com toda a natureza - uma conciliação entre ciência e espiritualidade.
O fato é que a humanidade está vivendo uma MUDANÇA DE ÉPOCA (mudança de paradigma, segundo o filósofo Thomas Kuhn), onde duas grandes correntes de pensamento estão competindo: a visão mecanicista e econômica em declínio, de um lado, e a visão complexa e ecológica (que complementa a anterior sem excluí-la) em emergência, de outro. A física newtoniana, alicerce da ciência moderna, cede lugar à revolução quântica. Logo, percebe-se que a ciência está diante de uma profunda reformulação - o desenvolvimento de uma nova epistemologia. Além da ciência, alguns eventos de escala planetária como a internet, a economia integrada, a globalização e as mudanças climáticas, apesar dos seus males, acabam contribuindo naturalmente para surgimento de novos padrões de comportamento individual e coletivo. A sociedade do poder, hierarquizada, estratificada e autoritária, pouco a pouco, transmuta-se para a formação de uma nova sociedade em rede, como define o sociólogo espanhol Manuel Castells. Todos esses megaeventos constituem a atual mudança de paradigma civilizacional, na qual se acredita ser possível caminhar para a legitimação de um novo sistema econômico ou um novo socialismo, amparado numa visão complexa de mundo, capaz de superar a crise da civilização atual (essas mudanças globais talvez sejam uma manifestação da “mão invisível” defendida por Adam Smith).
Em termos de mudança na área de administração, os exemplos mais expressivos talvez sejam as “Organizações de Aprendizagem – Empresa Viva” de Peter Senge e Arie de Geus e os novos paradigmas da administração de inovadores como Charles Handy, Peter Drucker e Tom Peters. Mudanças na forma de administrar que estão pondo um fim à era do “comando e controle”. Na área da educação, há uma necessidade de se buscar uma pedagogia transdisciplinar, libertadora e inclusiva, inspirada nas idéias de pensadores como Paulo Freire, Edgar Morin e Ivan Illich. Em termos de movimentos sociais, temos a turma de Porto Alegre que está tentando educar o pessoal de Davos, mostrando que “um outro mundo é possível” e, acrescento, urgente. Esta parece ser a megatendência: uma comunidade global, interdependente e com crescentes níveis de complexidade e diversidade.
Chegou portanto o tempo da difícil decisão: arena ou ágora? Será que a consciência coletiva irá acompanhar este movimento (abandonar a obsessão por controle e estabilidade, por um modo de vida fundado na competitividade, na negação do outro, impregnado nas mentes há milênios pela cultura patriarcal) e passar a funcionar conforme a natureza, cooperativamente com a aceitação do outro?
Esse tal paradigma teve início quando, não se sabe bem o porquê, a cultura patriarcal (favor não confundir com machismo) se instalou há aproximadamente sete mil anos entre os povos indo-europeus, segundo estudos arqueológicos (Riane Eisler e Marija Gimbutas). Este evento é considerado o marco inicial do longo processo de moldagem da mente humana pelo modelo mental linear ou cartesiano (aquele que privilegia o lado esquerdo do cérebro – racional, lógico, objetivo, repetitivo etc e subestima o lado direito – emoção, intuição, subjetividade, criatividade etc). Essa cultura patriarcal tem como principal característica a idéia de apropriação, compreendida como a vontade de poder e dominação do homem sobre si mesmo, sobre o outro, sobre a verdade e sobre a natureza. Foi a partir deste momento que o homem começou a se ver separado da natureza. Antes da cultura patriarcal havia uma cultura chamada matrística (não confundir com matriarcal), caracterizada pelo senso de participação, espiritualidade, interatividade, amorosidade, confiança e convivencialidade – vivia altamente integrada com a natureza.
O modelo mental linear começou a ser sistematizado há 2.500 anos por Aristóteles, Parmênides, Platão e outros pensadores gregos, quando surgiu a ciência. Muito tempo depois, este modelo foi consolidado pela ciência moderna, durante o século XVII. Dentre seus formuladores, os que tiveram maior expressão foram o físico Isaac Newton e o filósofo René Descartes, os quais conceberam a idéia de que existia uma realidade única e objetiva, independente da nossa vontade (que provoca frases do tipo: “já estava assim quando eu cheguei” ou “as coisas são assim mesmo, desde que o mundo é mundo”). O universo, segundo estes pensadores, é uma máquina (daí o termo “mecanicismo” – paradigma newtoniano-cartesiano). Também contribuíram para uma leitura de mundo fragmentada nomes como Galileu Galilei, Francis Bacon, Thomas Hobbes e outros.
Em torno dessa mesma época, surgiram as correntes culturais que deram sustentação a esse paradigma e moldaram o funcionamento da sociedade moderna, entre elas o Renascimento, o Iluminismo, o Positivismo e a Revolução Científica e Industrial. E foi assim que a administração científica (Taylor e Fayol), em busca da eficiência do homem-máquina, o homo racional, montou o sistema produtivo da era industrial – como as pessoas deveriam se encaixar nas organizações: o chefe (que sabe) manda e controla e os “recursos humanos” (recurso não pensa) obedecem. Para manter este modelo, o sistema educacional teve um caráter meramente adestrador e utilitarista, uma “educação bancária” como definiu Paulo Freire. Importante frisar que não se quer aqui desclassificar a ciência e os pensadores citados, que aliás foram notáveis em suas idéias e descobertas científicas, mas destacar a exaltação dada, ao longo de gerações, a um pensamento binário, linear e fragmentado, um reducionismo que, mesmo tendo proporcionado grandes avanços tecnológicos, também trouxe enormes problemas para a humanidade.
Em meados do século XX, esse modelo hediondo culminou com a criação do sistema capitalista globalizado. O socialismo (ou o comunismo), se tivesse predominado, possivelmente redundaria em um capitalismo de Estado, porque também era amparado numa visão reducionista de mundo, na lógica binária que provavelmente geraria problemas tão ou mais graves que os atuais - basta lembrar dos cerca de 30 milhões que morreram de fome na China de Mao Tsé-tung, por volta de 1960. O fato é que, no fim do século XX, com o crescimento da economia, entramos na era do capital, fundamentada num sistema econômico totalmente desvirtuado do que propunha inicialmente Adam Smith - um liberalismo econômico alicerçado no equilíbrio entre a finanças movida pelo auto-interesse, de um lado, e o bem-estar social movido pela “mão invisível” do mercado (interações sociais - auto-organização), de outro. A primeira força sobrepujou a segunda, gerando o chamado darwinismo social - equivocada justificação biológica para o capitalismo, uma apropriação deturpada da idéia de “seleção natural” de Charles Darwin. Como defende o biólogo chileno Humberto Maturana, “na natureza não há concorrência, por muito que seja afirmado por aqueles que mal entenderam a Darwin. A concorrência não é um fenômeno biológico primário. É um fenômeno cultural”. E para a cultura atual o universo é um grande mercado (cosmovisão dominante) onde nós seres humanos fomos reduzidos a tubos de consumo e excreção – o homo economicus, muitos dos quais seres invisíveis – a grande maioria já considerada desnecessária ao sistema. Esse modelo é hediondo porque é excessivamente competitivo, excludente e predatório. Chegou-se ao ápice do modelo mental linear, ao ponto do filósofo norte-americano Francis Fukuyama declarar o fim da História. Realmente é o fim, mas parece ser o fim de uma longa história da cultura patriarcal, pois Gaia, o superorganismo vivo Terra batizado por James Lovelock, está chegando ao seu esgotamento e vem dando respostas convincentes à incoerência desse modelo. Como diz Leonardo Boff, continuar vivendo nesse paradigma é uma atitude genocida e ecocida.
Porém, nos últimos cem anos, concomitantemente aos fatos narrados acima, a ciência estava se reconstruindo. Surgia uma NOVA CIÊNCIA – TEORIAS DA COMPLEXIDADE. Embora grandes pensadores como Sócrates, Heráclito, Pitágoras e outros já houvessem intuído, as novas idéias de mundo começaram com Henri Poincaré (matemática da complexidade), Einstein (teoria da relatividade – partícula/onda), depois veio Heisenberg com o princípio da incerteza (física quântica – física das possibilidades), Watson e Crick que decifraram o código genético da vida (estrutura do DNA – informação) e, mais recentemente, Edward Lorenz (teoria do caos – atratores caóticos), Benoit Mandelbrot (teoria dos fractais), David Bohm (ordem implicada – diálogo), René Thom (teoria das catástrofes), Lotfi Zadeh (lógica fuzzy), Amit Goswami (universo autoconsciente), o Nobel Ilya Prigogine (estruturas dissipativas), Humberto Maturana e Francisco Varela (autopoiese – biologia do amor), Leonardo Boff (teologia da libertação), Edgar Morin (unitas multiplex – operadores cognitivos), Pierre Lévy (cibercultura), Geoffrey Chew, Ralph Stacey, Gilles Deleuze, Felix Guatari, Lynn Margulis, Zygmunt Bauman, Basarab Nicolescu, Pedro Demo, Stephen Hawking, Niklas Luhmann, Murray Gell-Mann, Jürgen Habermas e tantos outros que contribuíram para mostrar que o universo não é tão inerte e linear como se pensava. Contribuiram também para mostrar que não vivemos em um mundo dado (a idéia de que a realidade é objetiva e independente do observador - visão representacionista), e sim em mundo co-criado onde cada um de nós criamos (afetamos) a nossa realidade. Como bem disse Heisenberg, “o que observamos não é a natureza em si, mas a natureza exposta ao nosso método de questionamento”.
Surgia assim o modelo mental complexo, que resulta do ABRAÇO entre o lado direito e esquerdo do cérebro, entre o linear e o holístico, o caos e a ordem - CAÓRDICO. Nas palavras do astrônomo James Jeans, “o curso do conhecimento está se movendo em direção a uma realidade não mecânica. O universo começa a se parecer mais com um grande pensamento do que com uma grande máquina”. O universo, e tudo que há nele, é um sistema adaptativo complexo (aquilo que é tecido junto – padrão de redes), relacional, auto-organizante, instável e neguentrópico (negação da entropia – sistema aberto), portanto, em contínua evolução. Sua única constante é a mudança – verdade com o qual a cultura patriarcal, enraizada há milênios, tem uma enorme dificuldade de conviver. Este modelo mental complexo seria então um resgate de padrões de comportamento daquela cultura matrística, uma tentativa de reintegração do homem consigo mesmo, com os seus semelhantes e com toda a natureza - uma conciliação entre ciência e espiritualidade.
O fato é que a humanidade está vivendo uma MUDANÇA DE ÉPOCA (mudança de paradigma, segundo o filósofo Thomas Kuhn), onde duas grandes correntes de pensamento estão competindo: a visão mecanicista e econômica em declínio, de um lado, e a visão complexa e ecológica (que complementa a anterior sem excluí-la) em emergência, de outro. A física newtoniana, alicerce da ciência moderna, cede lugar à revolução quântica. Logo, percebe-se que a ciência está diante de uma profunda reformulação - o desenvolvimento de uma nova epistemologia. Além da ciência, alguns eventos de escala planetária como a internet, a economia integrada, a globalização e as mudanças climáticas, apesar dos seus males, acabam contribuindo naturalmente para surgimento de novos padrões de comportamento individual e coletivo. A sociedade do poder, hierarquizada, estratificada e autoritária, pouco a pouco, transmuta-se para a formação de uma nova sociedade em rede, como define o sociólogo espanhol Manuel Castells. Todos esses megaeventos constituem a atual mudança de paradigma civilizacional, na qual se acredita ser possível caminhar para a legitimação de um novo sistema econômico ou um novo socialismo, amparado numa visão complexa de mundo, capaz de superar a crise da civilização atual (essas mudanças globais talvez sejam uma manifestação da “mão invisível” defendida por Adam Smith).
Em termos de mudança na área de administração, os exemplos mais expressivos talvez sejam as “Organizações de Aprendizagem – Empresa Viva” de Peter Senge e Arie de Geus e os novos paradigmas da administração de inovadores como Charles Handy, Peter Drucker e Tom Peters. Mudanças na forma de administrar que estão pondo um fim à era do “comando e controle”. Na área da educação, há uma necessidade de se buscar uma pedagogia transdisciplinar, libertadora e inclusiva, inspirada nas idéias de pensadores como Paulo Freire, Edgar Morin e Ivan Illich. Em termos de movimentos sociais, temos a turma de Porto Alegre que está tentando educar o pessoal de Davos, mostrando que “um outro mundo é possível” e, acrescento, urgente. Esta parece ser a megatendência: uma comunidade global, interdependente e com crescentes níveis de complexidade e diversidade.
Chegou portanto o tempo da difícil decisão: arena ou ágora? Será que a consciência coletiva irá acompanhar este movimento (abandonar a obsessão por controle e estabilidade, por um modo de vida fundado na competitividade, na negação do outro, impregnado nas mentes há milênios pela cultura patriarcal) e passar a funcionar conforme a natureza, cooperativamente com a aceitação do outro?
Tenho esperanças! Importa então lembrar das sábias palavras do grande poeta William Blake: “possa Deus nos proteger da visão única e do sonho de Newton”.
CRIANDO ORGANIZAÇÕES ECOLÓGICAS E COMPLEXAS
“Nossas formas atuais de organização são quase que universalmente baseadas em comportamento forçado - em tirania. A organização do futuro será a personificação da comunidade baseada em propósito compartilhado, falando às mais altas aspirações das pessoas.”
Dee Hock
Dee Hock
A reflexão acima do visionário e pragmático Dee Hock, fundador e Diretor Executivo Emérito da VISA, é de uma profundidade imensa e muito oportuna aos debates em torno da questão ambiental, que se tornaram prioridade na sociedade contemporânea. Daí surgem alguns questionamentos: mas o que é que as organizações (empresas e instituições) têm a ver com o aquecimento global? Elas também provocam as mudanças climáticas? Será que uma organização pode funcionar conforme os princípios que regem a natureza? Será que podemos falar em organizações ecológicas e complexas? Vou tentar responder, na medida do possível, em bases científicas.
A questão ecológica tornou-se tão relevante, dada a sua gravidade, que este campo de estudo acabou se diversificando. Comporta várias dimensões. Uma é a Ecologia Organizacional, que entende as organizações, sejam elas físicas, biológicas, sociais ou culturais, como entidades auto-organizantes e em contínua evolução. Outra é a Ecologia Profunda, de Arne Naess, que vê o homem como parte da natureza, inserido em seus processos cíclicos. Também há a Ecologia de Redes, que considera o acoplamento e a interdependência entre os diversos âmbitos organizacionais. A proposta aqui é investigar as atuais organizações sob estes três prismas.
Depois da família, as organizações - representadas pelas empresas e instituições públicas - são consideradas as instâncias essenciais ao saudável funcionamento da sociedade. E, atualmente, o sentimento percebido é o de que as nossas organizações estão em profunda crise e não conseguem mais atender aos propósitos pelos quais foram criadas. Usando o conceito de acoplamento estrutural do renomado biólogo chileno Humberto Maturana, diria que houve um desacoplamento: as organizações, enquanto sistema, perderam sua congruência com o mundo externo, ou seja, estagnaram (ou evoluíram a passos muito lentos) e não acompanharam o supersistema do qual fazem parte, a sociedade, que mudou - suas demandas cresceram em complexidade e diversidade. Não conseguimos atender estas novas demandas porque ainda predomina o modelo mental linear nas empresas e instituições, que hoje se manifesta em suas formas mais virulentas: autoritarismo, corrupção, concentração de riqueza, relações humanas utilitaristas, individualismos, degradação ambiental etc. Portanto, não houve a necessária aprendizagem para introdução, em nossas organizações, de novos modelos mentais (mudança cultural) e de técnicas de gestão desta era pós-industrial ou era do conhecimento. Por isso falta coerência nas nossas práticas administrativas frente às ameaças e oportunidades do difícil contexto atual.
O objetivo último das organizações, sobretudo as do setor público (onde a lógica de mercado não constitui a principal base de funcionamento), é a geração do bem-estar da vida humana em sociedade. Logo, podemos dizer que o grande negócio de qualquer organização é, em última instância, contribuir efetivamente para a construção de uma sociedade mais democrática e justa em que todos os seres humanos possam estar incluídos no sistema social e produtivo e, assim, viver dignamente em comunidade. Não obstante o avanço tecnológico alcançado pela humanidade, esta tão desejada e esperada justiça social – aquela que gera cidadãos de fato – parece distanciar-se cada vez mais. E isto afeta o desenvolvimento social que, por sua vez, afeta o cuidado que se deve ter com o meio ambiente e este retroage sobre toda a cadeia - é a lógica da teia da vida. Ou seja, sob esta perspectiva, será que as nossas organizações estão sendo ecologicamente corretas? Se continuarem atuando na linearidade, a resposta será não. Aliás, estão na contramão da Nova Ciência que vê o mundo em sua totalidade complexa.
Mas, nem tudo está perdido. Podemos delinear alternativas reais para melhorarmos o mundo das organizações. O ato de trabalhar em coletividade na sociedade complexa em que vivemos requer um pensar e um agir complexo, requer uma administração complexa. É o que a ciência vem dizendo nas últimas décadas: tudo no universo é complexidade. Logo, para criarmos organizações complexas e ecológicas, sugiro três iniciativas ecologicamente corretas, que se retroalimentam e se complementam:
1 – Ecologia Organizacional: permitir o alvorecer da auto-organização, ou seja, DEMOCRATIZAR o espaço micropolítico que são as organizações, sobretudo as instituições públicas. Como sugere o psicólogo Ruy Mattos: “sendo a sociedade um supersistema constituído por instituições, organizações e grupos sociais, como podemos esperar a democratização do todo sem a democratização de suas partes? Como poderá conviver um governo democrático em sua expressão macro, com um infindável número de feudos organizacionais, com seus 'baronatos', 'principados' dificultando o exercício da prática e alimentando, no interior de suas fronteiras, a aristocracia e o compadrio como critérios de distribuição do poder administrativo?” Aqui se insere o conceito de democracia organizacional que, por meio de processos dialógicos, faz sugir lideranças facilitadoras, integrando pessoas e gerando sinergia, cooperação, motivação e criatividade;
2 – Ecologia Profunda: promover uma cultura de APRENDIZAGEM, individual e coletiva, para melhorarmos nossa capacidade de gerir a mudança no mundo que nos cerca. Significa melhorar nossos modelos mentais, mudando de um padrão de pensamento eminentimente linear para um padrão complexo de pensamento. Trata-se da educação continuada que, partindo do pressuposto de que o homem é co-criador de sua realidade ao expressar seus potenciais, permite o autoconhecimento e o autodesenvolvimento do ser humano, melhorando suas percepções de mundo e tornando-o mais integrado consigo mesmo, com o outro e com o ambiente (incluindo a natureza) que se encontra em permanente mudança, gerando assim uma cultura biocêntrica, voltada para a valorização da vida. Desta forma, abre-se espaço para começarmos a fazer o novo e sairmos da repetição e do isolamento - características do homem racional e mecânico da era industrial. Essa iniciativa permite também nos sentirmos parte de algo maior e mais significativo que é o trabalho com espírito de coletividade que deve ser realizado dentro das organizações, nos aproximando mais dos nossos semelhantes e alimentando uma ética da alteridade;
3 – Ecologia de Redes: como diz o físico Fritjof Capra, “o padrão da vida é um padrão de redes, capaz de auto-organização”. As estruturas organizacionais devem diminuir mais as hierarquias (centralização do poder - “comando sagrado”, do grego) e burocracias que enrijecem o seu funcionamento e procurar uma melhor configuração por meio de ricas redes (lateralidade - poder distribuído) de RELACIONAMENTOS, interna e externamente. Logo, as organizações devem buscar, cada vez mais, aproximar-se e relacionar-se entre si e com a comunidade na qual se encontra inserida. Nesse caso, estarão dando sua parcela de contribuição para a criação de uma rede de cidadania e convivencialidade no tecido social, harmonizando-o com o meio ambiente.
Uma mudança dessa magnitude não é tarefa das mais fáceis. Reconheço que é complexa, mas possível (já existem muitos exemplos – o terceiro setor, que vem preenchendo um vácuo deixado pela inércia do Estado e a voracidade do Capital, é o maior deles), desde que nós, sobretudo dirigentes empresariais e gestores públicos, esvaziemos nossa mente para entrada de novas idéias, valores e crenças e, principalmente, coloquemos sob controle nossa dimensão egóica, aquilo que a cultura patriarcal transformou em artigo de primeira necessidade. Como alerta o psicoterapeuta Humberto Mariotti, “o ego não tem a inocência necessária para aprender com o fluxo da vida”. Parece ser esta a mensagem que Gaia está tentando passar para nós, os seus inquilinos.
É, portanto, uma questão de escolha (liberdade): quem está disposto a mudar a si para mudar sua organização e, assim, mudar o mundo?
Por fim, é importante salientar que a intenção destes ensaios não é afirmar que esta percepção individual, portanto limitada, seja a correta, pois a certeza é cega - quanto mais se tem, menos se vê, como diz Humberto Maturana. A intenção é melhorar nossa capacidade de autocrítica e trazer subsídios para buscarmos juntos uma alternativa que satisfaça a todos – seres humanos, organizações, sociedade e o nosso ecossistema.
A questão ecológica tornou-se tão relevante, dada a sua gravidade, que este campo de estudo acabou se diversificando. Comporta várias dimensões. Uma é a Ecologia Organizacional, que entende as organizações, sejam elas físicas, biológicas, sociais ou culturais, como entidades auto-organizantes e em contínua evolução. Outra é a Ecologia Profunda, de Arne Naess, que vê o homem como parte da natureza, inserido em seus processos cíclicos. Também há a Ecologia de Redes, que considera o acoplamento e a interdependência entre os diversos âmbitos organizacionais. A proposta aqui é investigar as atuais organizações sob estes três prismas.
Depois da família, as organizações - representadas pelas empresas e instituições públicas - são consideradas as instâncias essenciais ao saudável funcionamento da sociedade. E, atualmente, o sentimento percebido é o de que as nossas organizações estão em profunda crise e não conseguem mais atender aos propósitos pelos quais foram criadas. Usando o conceito de acoplamento estrutural do renomado biólogo chileno Humberto Maturana, diria que houve um desacoplamento: as organizações, enquanto sistema, perderam sua congruência com o mundo externo, ou seja, estagnaram (ou evoluíram a passos muito lentos) e não acompanharam o supersistema do qual fazem parte, a sociedade, que mudou - suas demandas cresceram em complexidade e diversidade. Não conseguimos atender estas novas demandas porque ainda predomina o modelo mental linear nas empresas e instituições, que hoje se manifesta em suas formas mais virulentas: autoritarismo, corrupção, concentração de riqueza, relações humanas utilitaristas, individualismos, degradação ambiental etc. Portanto, não houve a necessária aprendizagem para introdução, em nossas organizações, de novos modelos mentais (mudança cultural) e de técnicas de gestão desta era pós-industrial ou era do conhecimento. Por isso falta coerência nas nossas práticas administrativas frente às ameaças e oportunidades do difícil contexto atual.
O objetivo último das organizações, sobretudo as do setor público (onde a lógica de mercado não constitui a principal base de funcionamento), é a geração do bem-estar da vida humana em sociedade. Logo, podemos dizer que o grande negócio de qualquer organização é, em última instância, contribuir efetivamente para a construção de uma sociedade mais democrática e justa em que todos os seres humanos possam estar incluídos no sistema social e produtivo e, assim, viver dignamente em comunidade. Não obstante o avanço tecnológico alcançado pela humanidade, esta tão desejada e esperada justiça social – aquela que gera cidadãos de fato – parece distanciar-se cada vez mais. E isto afeta o desenvolvimento social que, por sua vez, afeta o cuidado que se deve ter com o meio ambiente e este retroage sobre toda a cadeia - é a lógica da teia da vida. Ou seja, sob esta perspectiva, será que as nossas organizações estão sendo ecologicamente corretas? Se continuarem atuando na linearidade, a resposta será não. Aliás, estão na contramão da Nova Ciência que vê o mundo em sua totalidade complexa.
Mas, nem tudo está perdido. Podemos delinear alternativas reais para melhorarmos o mundo das organizações. O ato de trabalhar em coletividade na sociedade complexa em que vivemos requer um pensar e um agir complexo, requer uma administração complexa. É o que a ciência vem dizendo nas últimas décadas: tudo no universo é complexidade. Logo, para criarmos organizações complexas e ecológicas, sugiro três iniciativas ecologicamente corretas, que se retroalimentam e se complementam:
1 – Ecologia Organizacional: permitir o alvorecer da auto-organização, ou seja, DEMOCRATIZAR o espaço micropolítico que são as organizações, sobretudo as instituições públicas. Como sugere o psicólogo Ruy Mattos: “sendo a sociedade um supersistema constituído por instituições, organizações e grupos sociais, como podemos esperar a democratização do todo sem a democratização de suas partes? Como poderá conviver um governo democrático em sua expressão macro, com um infindável número de feudos organizacionais, com seus 'baronatos', 'principados' dificultando o exercício da prática e alimentando, no interior de suas fronteiras, a aristocracia e o compadrio como critérios de distribuição do poder administrativo?” Aqui se insere o conceito de democracia organizacional que, por meio de processos dialógicos, faz sugir lideranças facilitadoras, integrando pessoas e gerando sinergia, cooperação, motivação e criatividade;
2 – Ecologia Profunda: promover uma cultura de APRENDIZAGEM, individual e coletiva, para melhorarmos nossa capacidade de gerir a mudança no mundo que nos cerca. Significa melhorar nossos modelos mentais, mudando de um padrão de pensamento eminentimente linear para um padrão complexo de pensamento. Trata-se da educação continuada que, partindo do pressuposto de que o homem é co-criador de sua realidade ao expressar seus potenciais, permite o autoconhecimento e o autodesenvolvimento do ser humano, melhorando suas percepções de mundo e tornando-o mais integrado consigo mesmo, com o outro e com o ambiente (incluindo a natureza) que se encontra em permanente mudança, gerando assim uma cultura biocêntrica, voltada para a valorização da vida. Desta forma, abre-se espaço para começarmos a fazer o novo e sairmos da repetição e do isolamento - características do homem racional e mecânico da era industrial. Essa iniciativa permite também nos sentirmos parte de algo maior e mais significativo que é o trabalho com espírito de coletividade que deve ser realizado dentro das organizações, nos aproximando mais dos nossos semelhantes e alimentando uma ética da alteridade;
3 – Ecologia de Redes: como diz o físico Fritjof Capra, “o padrão da vida é um padrão de redes, capaz de auto-organização”. As estruturas organizacionais devem diminuir mais as hierarquias (centralização do poder - “comando sagrado”, do grego) e burocracias que enrijecem o seu funcionamento e procurar uma melhor configuração por meio de ricas redes (lateralidade - poder distribuído) de RELACIONAMENTOS, interna e externamente. Logo, as organizações devem buscar, cada vez mais, aproximar-se e relacionar-se entre si e com a comunidade na qual se encontra inserida. Nesse caso, estarão dando sua parcela de contribuição para a criação de uma rede de cidadania e convivencialidade no tecido social, harmonizando-o com o meio ambiente.
Uma mudança dessa magnitude não é tarefa das mais fáceis. Reconheço que é complexa, mas possível (já existem muitos exemplos – o terceiro setor, que vem preenchendo um vácuo deixado pela inércia do Estado e a voracidade do Capital, é o maior deles), desde que nós, sobretudo dirigentes empresariais e gestores públicos, esvaziemos nossa mente para entrada de novas idéias, valores e crenças e, principalmente, coloquemos sob controle nossa dimensão egóica, aquilo que a cultura patriarcal transformou em artigo de primeira necessidade. Como alerta o psicoterapeuta Humberto Mariotti, “o ego não tem a inocência necessária para aprender com o fluxo da vida”. Parece ser esta a mensagem que Gaia está tentando passar para nós, os seus inquilinos.
É, portanto, uma questão de escolha (liberdade): quem está disposto a mudar a si para mudar sua organização e, assim, mudar o mundo?
Por fim, é importante salientar que a intenção destes ensaios não é afirmar que esta percepção individual, portanto limitada, seja a correta, pois a certeza é cega - quanto mais se tem, menos se vê, como diz Humberto Maturana. A intenção é melhorar nossa capacidade de autocrítica e trazer subsídios para buscarmos juntos uma alternativa que satisfaça a todos – seres humanos, organizações, sociedade e o nosso ecossistema.





